Re: Why don't you like Science?

Deixo aqui a resposta que dei ao post da Joana, Why don't you like Science? no novo blog dela, Educação ABC:

"Oi Joana,

isto de verdades e realidades é uma chatice de definir. Por isso é q a ciência optou pelas teorias e modelos, ao contrário da religião, que optou pelos dogmas e descrições inalteráveis. A religião está errada e a ciência está certa? Que eu saiba, a procura da verdade tem vários instrumentos: a experiência, o reasoning e a investigação. Não vejo porque a religião tenha de estar sempre errada ou a ciência sempre certa, ambas têm acesso aos mesmos instrumentos e usam-nos. Conheço religiões interessantes, já ouvi falar de ciência manhosa, e aqui, tal como nos computadores, faz sentido distinguir o que é inerente do que é imposto a estes extremos do espectro. Bom e mau não me parecem inerentes a nenhum deles.

Ainda hj estive a ler sobre o valor do diálogo na criação de significado, especialmente se estão em jogo duas perspectivas diferentes. A diferença como generativa de significado não exclui uma abordagem monológica, senão andávamos sempre a discutir extrmos e não tomávamos decisões, e lá voltávamos ao relativismo romântico mais uma vez ou ao eduquês que tanto valoriza o processo e se esquece do conteúdo. Mas é um sinal de algo que não pode ser esquecido: podes tirar valor das diferenças e esse valor pode ser bem maior do que se só considerares um ponto de vista.

É também curioso que a física quântica parece estar a colocar as mesmas hipóteses colocadas por algumas religiões com mais de 2500 anos (o livro Nós, a partícula e o Universo do Basarab Nicolescu entre outros fala nisso), que não tiveram acesso aos biliões de dólares necessários para construir os super aceleradores (o do CERN está quase pronto).

Voltando à questão do teu post, Why don't you like Science?, acho que é fácil perceber porque é que um miúdo não gosta. Aulas sem ligação à vida real, hands-on sem reflexão sobre a tarefa, aulas expositivas, fracas razões dadas aos miúdos quanto ao valor da ciência. A questão que deriva desta, e à qual tentaste tentaste responder com o argumento da curiosidade, Why should you like science?, acho que é uma pergunta fundamental e cuja resposta que deste não é suficiente. E o resultado é o que tens visto, os putos não ligam. às vezes há um ou outro mais curioso que talvez diga que sim, que faz sentido na altura e depois 5 minutos depois esquece.

Uma explicação convincente para explicar às criancinhas porque é a ciência importante é um problema, e podes pegar no caso de várias formas: tens o argumento tecnológico, tens o argumento da curiosidade, tens o argumento do aperfeiçoamento, tens o argumento do equilíbrio que a ciência traz a religiões que preferem cordeirinhos que duvidam pouco. E falo de uma ciência humanista que é utilitária ok, mas que também liga as pessoas, e cujo processo de auto-regulação se baseia no diálogo, aberto a todos (o peer-reviewing, as discussões públicas). E não falo só das ciências físicas, mas de uma ideia mais abrangente, de conhecimento e saber como viste na definição do dicionário.

Assim, aqui vai uma proposta de resposta, concreta: Para já a pergunta está mal feita. Prefiro a "Porque é que achamos que deves aprender ciência?" como se fosse primeiro, uma razão surgida dos erros civilizacionais graves que fizémos e que custaram caro a homens, mulheres, crianças, outros seres vivos e à Terra nestes séculos e séculos de Humanidade.

Possível resposta: Porque antes de tudo, a ciência nos mostra que devemos duvidar das aparências e a não fazer juízos rápidos, principalmente se não tivermos factos. Aqui há uns tempos queimavam-se pessoas, principalmente mulheres, só porque alguém lançava um boato que eram bruxas. Sem factos, sem nada. Aqui há uns tempos, matavam-se judeus e escravizavam-se africanos e índios porque se dizia, novamente sem factos, que eram seres inferiores ao homem branco. A ciência julga devagar, é persistente na procura de respostas e valoriza a dúvida como abordagem inicial a uma teoria proposta. E apesar do Hitler ser recente e se tentar basear em pseudo-ciência para provar a inferioridade dos judeus, ou de o Watson que descobriu (descobriu mesmo?) o DNA afirmar que os negros têm um dna inferior, O argumento da justiça acho que é mais facilmente apreendido pelos miúdos pelo menos para começar ;)

A história de como a teoria de a Terra girar em torno do Sol foi confrontada, esta resposta espectacular e contra todo o senso comum e fascinante blabla, e o facto de Galileu ter desafiado a Igreja e baixado a bola e aqui há tempos a Igreja ter pedido desculpa acho que não pega tão bem ao início. Ou a ciência como satisfação de uma curiosidade. Os putos são curiosos, exploram o mundo e constroem os seus modelos da realidade. Falares na Ciência como tendo um método melhor do que o eles para satisfazer a sua curiosidade (e ainda para mais um método complexo com instrumentos esquisitos em que tens de estudar muitos anos e que pode demorar anos ou séculos a obter respostas) para começar não resulta.

Esta resposta macro talvez resulte, se quiseres tentar, dp diz-me como correu. Depois de insistires nesta, e dialogares com eles sobre isso, e contrapuseres pontos de vista diferentes, talvez os míúdos comecem a pensar no valor de outras coisas, tais como a beleza, o amor, a verdade, a persistência, as relações ou a vida. A ciência pode ajudar a tirar dúvidas e a tornar o caminho mais confortável. Com abusos, claro, nesta espécie que parece que tem tirado mais do que dá. Mas mais do que isso, a Ciência traz a dúvida e assume a incerteza como valor primordial, nas teorias que podem sempre mudar e evoluir. E isto, para as visões tradicionalistas e conservadoras, pode ser uma chatice.

PS: Há um artigo de Jonathan Osborne sobre a literacia científica, falácias associadas e razões para a Ciência fazer parte do currículo, para o qual deixo aqui o link. Ele reflecte sobre isso melhor do que todos nós ;)"

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